12ºM em 2004
Tuesday, August 03, 2004
 
Cá estamos
Pois é... cá estamos. Estamos? sim, estamos, sempre. Por muito que não estejamos, estamos sempre juntos, sempre na memória de um ano, dois anos que não nos saem da cabeça e do coração; um ano, dois anos risonhos, sérios também, chorosos de vez em quando. Mas é claro que do que nos lembramos é das piadas, das setas, do jardim zoológico, dos cafés, dos livros, dos apontamentos saltimbancos, sem eira nem beira, viajantes de mão para mão, dos Renés, dos Artauds, dos Freuds e Piagets, dos Kants e Nietzsches... De muitas outras coisas que farão uma ponte de lembranças, boas lembranças entre os rios do nosso futuro... Lis, Mondego, Tejo... "Em cada esquina um amigo..." - eu digo "em cada rio toda a minha saudade", a nossa saudade, a saudade de todos nós, e a promessa de não haver um desaparecimento do traço mnésico e a promesa de que o esquecimento, aqui, NÃO faz parte da memória!

12ºM em 2004, 2008, 2020...
12ºM sempre!
E com uma lágrima de pára-quedas, um abraço forte a todos
http://ureka.co.nr

Thursday, April 29, 2004
 
Entremez ao Auto da Índia
Gil Vicente- Cuidei de me encontrar aqui com esse bufão desavisado
E não há hora nem maneira de o encontrar aqui!
Contaram-me mil cousas. Que era de mil talentos
De mil recursos.!

Antonio parece que assim se chama.
Que ideia a minha de contratar gente d’artes para a representação do meu auto!
Espero que me não arrependa!
Um romano!
Um estrangeirado!
Que não tenha nada com o demo!

(ouvem-se risos e falatório; vem um grupo chegando)


Antonio-Mio caro Gil! Mestre!(rindo alcoolizado)

Gil- Porque ris, cuidais que sou bobo!

António-mas meu caro mestre da grande arte de Téspis, porque é que em tudo sisas e tudo levas a peito
a vida é uma cousa troppo bela, devemos vivê-la! Não é amigos mios!

Gil Vicente-Pronto,pronto,está bem! não há tempo para festejos! Lês-te os manuscritos que eu vos dei?

António-Mas que belíssima comédia. Iremos fazer una bella atelana!

Gil Vicente- Antes de mais mui respeito. Cuidai que o teatro fique no palco. Nada de extravasamentos. Cada cousa no seu lugar. Iremos Ter a própria raínha mãe a presidir á audição! Esta gente.. são os que contratas-te para a representação?São gente de artes?


António-Do melhor meu mestre !Vede com os teus próprios olhos!(áparte)Com as duas moedas de oiro fiz milagres na contratação do pessoal. Alguns são bufões(franceses) que apanhei quando se íam inscrever numa armada à procura de novos mundos; A Maria é a minha amada, já anda nisto há muito tempo.Aqui estão três filhas minhas, todas nascidas nas terras do Pó.Dois goliardos castelhanos. E o resto é gente que queria ganhar algum(é o que mais há nestes dias. Enquanto vier alguma riqueza dessas terras d’além –mar, há sempre gente a querer ganhar!)
Olha fiz uma rima, hips!

Gil Vicente-Não parecem lá grande coisa!
António -Ides ver meu ilustre mestre, que nada desconhecem desta arte. Eu próprio lhes fiz entender as sábias regras da arte! São desenvoltos e com muita destreza,(muito pontapé no traseiro lhes dei! ) Dá-se-lhes um copo e falam até pelos cotovelos.Sabem rir e agradar ( eu próprio lhes ensinei)Que eu d’artes tudo conheço ,por muitas cortes passei, fiz mistérios e milagres sem nenhum excesso,e até momos ensaiei.
Conheço gregos antigos
Grandes Romanos estudei
Cantei trovas com amigos
E autos representei


Da jogral nada me escapa
Desde a récita á dança
Torno-me em todos até no papa
Desde que no fim da função encha a pança


Gil Vicente- Não há tempo a perder. A rainha pode chegar a qualquer altura. Prepara a cena.
Eu próprio direi umas palavras de inicio.



(Entra a raínha D.Leonor com o seu séquito)



Gil Vicente – Minha Senhoria!

R. D.Leonor – Meu bom Gil !

Gil Vicente – Muito me honra a Sua vinda . Vinde por aqui, tenho o melhor lugar para Vós!

R.D.Leonor – (depois de se sentar ; indicando um colar de ouro) Vêde como te honro, pus ao meu colo uma das obras do teu mister, mestre Vicente!

Gil Vicente – Fico mui orgulhoso, mas apenas a sua presença aqui já é motivo para me encher de orgulho!

R.D.Leonor – Bom, mas dizei-me, os jograis que escolhestes ,são bons?

Gil Vicente – Assim o espero Senhoria. Escolhi um comediante , que é o novo nome dos jograis, um estrangeiro, um Paduaense (aparte) rezo a S, António para que tudo corra bem!(desfazendo o aparte) Um homem do Mister, Senhoria! Um verdadeiro descendente de Plauto! Um elenco de luxo!(aparte) espero que não estejam ébrios! (desfazendo o aparte)Tudo irá correr da melhor maneira.Vosssa Senhoria dá permissão de iniciar-mos a representação

R. D.Leonor – Começai!começai sem delongas!

(Gil Vicente bate as palmas e senta-se ao lado de D.Leonor)



Gil Vicente dirige-se para o centro do palco e diz:

Gil Vicente– À farsa seguinte o grande mestre Gil chamou “Auto da Índia”. Foi fundado sobre que uma mulher, estando já embarcado pera a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ía. E ela de pesar está chorando. E fala-lhe uma sua criada...


Monday, April 26, 2004
 
Um hamlet a mais
12 DE maio, 12 euros, partida 17:30 horas



ANTES DA MEIA NOITE
O Teatro Nacional D. Maria II apresenta uma nova versão do HAMLET, a partir de 16 de abril a 16 de Maio a NOVA encenação de Ricardo pais, a partir do Hamlet de Shakespeare – “UM HAMLET A MAIS”. Uma produção do Teatro Nacional S. João.

Regresso à errância inquietante do texto de William Shakespeare, aqui exposto a um diálogo íntimo e explosivo com a música de Vítor Rua e às fantasmizações vídeo de Fabio Iaquone e Paulo Américo, numa alucinação poética potenciada pelo dispositivo cénico de António Lagarto. Regresso ainda à matriz mais libertina de Ricardo Pais – livre circulação de palavras e vozes e a sua violentada manipulação tecnológica a despoletar imaginários paralelos. Um Hamlet sensorial a destilar melancolia e misoginia. E nos intervalos de um improvável concerto roxy, ouve-se a máquina da guerra.
“Silêncio!” Os actores cantam, Shakespeare vigia. “Ergam Hamlet como soldado neste palco”.
Desembainhem as espadas e liguem os microfones. Este espectáculo vai (re)começar.

(...)Um Hamlet nunca é de mais. Uma das estratégias de criação contemporânea é, como sempre foi, rever a memória própria e alheia de um texto, reescrever a partir de traços dessa memória uma linguagem própria... Assim escolheu Ricardo Pais ao reincidir na abordagem de um dos mais emblemáticos textos da tradição teatral ocidental, buscando agora não a reconstituição da narrativa e da poética do texto mas a sua recomposição, a possibilidade alucinatória de escolher fragmentos e de os magnificar, de se aventurar em estilhaços escolhidos da vida de um homem em dúvida visceral. Talvez aqueles que melhor podem fazer-nos compreender a natureza íntima da personagem, talvez outros que descobrem na trama ecos singulares de questões eternas, talvez ainda outros que a memória criativa, a vontade, a démarche do encenador trazem, com improbabilidade, à superfície.

Vítor Rua compôs toda uma pauta integralmente nova para esta segunda versão, que há variações no elenco – mantendo-se, naturalmente, João Reis no papel titular – nenhum encenador revista impunemente um espectáculo. Estamos, perante um daqueles casos que comprovam que uma experiência teatral não é nunca, por definição, igual a outra


UM HAMLET A MAIS

texto de WILLIAM SHAKESPEARE
traduzido por ANTÓNIO M. FEIJÓ montado por AMF e RP
para um espectáculo de RICARDO PAIS

cenografia e figurinos ANTÓNIO LAGARTO música original (executada ao vivo) VÍTOR RUA
vídeo FABIO IAQUONE , PAULO AMÉRICO desenho de luz NUNO MEIRA
desenho de som FRANCISCO LEAL desenho de lutas MIGUEL ANDRADE GOMES
preparação vocal JOÃO HENRIQUES assistência de direcção NUNO M CARDOSO

com JOÃO REIS, ANTÓNIO DURÃES, LUÍSA CRUZ, NICOLAU PAIS, PEDRO ALMENDRA, HUGO TORRES

produção TNSJ


Sunday, April 25, 2004
 
Deixem os vossos endereços
Enviem-me os vossos endereços (alunos do 12M) de email para constantinalves@netcabo.pt para que eu vos possa convidar a aceder ao blog

 
12M
A turma do 12º M de OED
( Ana, Diana,Mariana,Liliana,Sara S, Sara Sc, A. Luísa, Joana, Carina, Celine V., Celina S.,Selénia, Rodrigo, João, Francisco, Francisco N.,Daniel, Bruno, J.Pedro,Nuno,J.Afonso)


no poliedro do redondo do mundo
também há uma face escrita de 21 rostos
formam uma turma e experimentam a alma
no equílibrio dos olhares e das palavras
muitos ainda têm os olhos pregados no corpo
e o mundo é só uma imagem.

Como os outros que passaram também experimentam o vento
e ousam o toque no fogo
sabem lá eles o futuro mas ousam o riso
São de carne como eu e como os outros
mas ousam a ideia e não pedem licença para o acto

tudo igual como sempre como os outros
mas já têm a memória
onde ficarão para sempre
os Zeferinos e as Matumbinas,
os meninos brincando no sótão,
e outros personagens como os soldados de chumbo,
os monstros grunch, as bonecas de trapos, as bailarinas,
as caricaturas do nosso tempo, as almas vividas
os sorrisos trespassados uns nos outros.
Porventura lembrar-se-ão um dia de uma bola azul
e da experiência do espírito e do corpo,
farão calor na expressão
e darão valor aos homens e mulheres do mundo.

Um dia, sonho, irão ao teatro.
Como os outros sorverão as palavras do dramaturgo,
rir-se-ão na comédia, chorarão no drama ou na tragédia
mas saberão que aquele mundo para lá do palco
que para o ingénuo é mentira,
é na verdade a vida
autêntica, crescida, vivida e aumentada

e o vento que foram e o toque no fogo que fizeram
cresceu e rebentou
e o teatro que vêem
é uma árvore
que lhes dá o fruto mais nobre
que eles um dia também semearam!




Constantino Alves




 
Abertura da arca
Mar- Para vós tenho uma surpresa
Ama- Mas não quero nada, apenas ser amada
Mar- pois, pois quero vos mostrar a minha gratidão de vós serdes tão recatada,
Sem amores nem amantes durante tanto tempo tão fiel
Ama- eu fiz por gosto que eu de vós gosta mais que o mel


Mar- Ora chama lá os vizinhos para que saibam o que vai acontecer
Ama- moça, chamai os parceiros que é hora de felicidade

Moça- Vinde compadres, comadres, vizinhos e outros tantos que estais ansiosos! Não respondem! Serão doudos? A arca, chegou a arca…o tesouro, uma pipa de ouro

Todos: a arca! Oi , a arca, maravilha


Mar- Ora, vamos lá ver, e um, e dois e três
Sai a Indiana
Apresento-vos, Indhira, a minha nova mulher, que não é de aldrabices
Nem de “cornices”

Constança. Mas o que vem a ser isto? Obra do diabo?

Mar- Minha cara Constança! Lá nas índias bem me pesaram…. Sabendo por uma feiticeira que por cá mos punhas!


Constança: mas eu, não fiz nada! Só rezas e castigos!

Mar- Pois, pois, foi um castigo mas foi para mim, saber o que por cá se passava, mas agora é tarde para arrependimentos, fazei as malas e ide com os teus amigos, para fora da casa, que agora tem nova dona!

Indhira- meu amado esposo, esta casa tem muito karma, não podeis mandá-los embora?


Mar- cho gentalha daqui pra fora que a nova dona já cá mora!



Canção do marido e de Indhira

 
Regresso do marido
Mar-Oulá!
Ama- (ali má hora, este é)
Quem é?

Mar- homem de pé
Ama- gracioso se quer fazer. Subi,subi para cima.
Moça- é nosso amo como rima!
Mar- abraçai-me minha prima.
Ama- moça,tu que estás olhando, faze fogo, vai por vinho e ametade d’um cabritinho,enquanto estamos aqui falando.

Mar- deixa-me puxar pra aqui esta minha arca que trouxe para ti
Ama-. A arca?ai meu deus como é verdade!
Mar- e se é verdade…! Trago-vos uma surpresa mais que uma novidade
Ama- Como és gentil meu maridinho! Não precisava nem de metade!
Mar- Mas tu és merecedora , pois sei que és mulher de recado!

Depois continua texto!



 
Boatos na Feira
Boatos


Vizinha – Anda cá rapariga! Parece-me que não ouvi bem... uma arca? e também ouvi Constança
Moça- UI credo !| Constança? Estou pressa... vou nesta andança...
Vizinha- Alto! Espera aí! Eu quero ouvir o que está para vir!
Moça- Mas ela não disse nada.
Vizinha – espera...estou curiosa que disse ela...uma arca que está para vir?
Moça - pois , uma arca! Para Constança, e mais não posso dizer!


Judeu- Que diz que disse? Uma arca que vem das Índias?
Vizinha: Sim, uma arca cheia a abarrotar de ouro de pedras e de sortes tamanhas....
Judeu_ para quando vizinha?
Vizinha- Só para o ano ! mas ela vai ficar muito rica! Se tamanha é a riqueza para nós há-de chegar!


Peixeira: Portugal vai dourar?
Judeu: Sim, com essa arca do marajá que aí vem para nosso bem
Peixeira: Oh! Com mil diabos, e para quem vem essa arca de abastança?
Judeu: Para a Constança, a mulher do António, aquele marinheiro...


Jogral: Abastança, dinheiro, fortuna?
Peixeira: e vem numa arca numa nau num dia de bonança para a aquela... a Constança.
Jogral: Que espectáculo (rap)


Uma arca vem aí
Numa nau de Portugal
Chega para o ano já aqui!
Com uma fortuna bestial

Judeu: Com essa arca eu cobriria
De ouro toda , toda a Judiaria.

Peixeira: Com ouro deixava esta vida
Que outra melhor para mim era merecida

Jogral: Que malha será essa arca do marajá
Quando chegar rico me fará

Repete refrão



 
Judeu com Constança/ sessão espírita
Judeu com Constança



Judeu:
Truz!truz! (falando)

Constança:
truz? Truz?
Que raio quem deve ser
Por jesus e pela cruz
Que diabo vem agora me ver?

Judeu:
Nem diabo nem cruz
Que eu só vou até Moisés
Ou alguém que faça jus
De Deus e de mim da cabeça até aos pés!

Constança:
Oh ! lá lá
Que este quer bem de si
Porque vem cá?


Judeu:
Ora bem minha linda!
Não conheces o teu vizinho?
Que te quer bem
Não serei mui belo
Mas tenho tecidos e joias linho

Constança:
Oh! Lá
Este é diferente...
Ora mostra o que tens

Judeu:
Tecidos jóias e outros bens

Constança:
Mas eu não tenho nenhum dinheiro

Judeu:
Tu não sabes
Mas és muito rica...

Constança:
Achais? Não sois mui vellho
Para essses galanteios?


Moça:
Senhora, há uma coisa que tens de saber
Há uma arca...(diz alto)

Judeu:
uma arca!

Constança:
A arca?

Moça:
Uma arca embarcada

Judeu:
Senhora uma arca muito arca!

Constança:
Uma arca muito arca? Falais por enigmas?

Moça:
É que...

Constança:
É que ...

Judeu:
É que...
Senhora sois rica
Muito rica

Constança:
uma arca muito rica

Moça :
uma rica arca



cena II

Vizinha: a arca!

Vidente: a arca!
Jogral: a arca!
Peixeira: a arca!

Constança:
Contai o que sabeis
Parece que sou a última a saber

Vidente:
Os espíritos falaram,
Vem aí uma arca


Constança:
E o que tem essa arca?

Vidente:
Ricos tesouros

Constança:
como sabeis?

Vidente:
Senhora, senhores~
Fazei uma união
Todos juntos


Sessão espírita
Vidente: uni as mãos em segredo, buscai a sorte, soltai o medo.
Tendes que acreditar, crer, fechai os olhos, ponde a alma a ver!

Orai comigo esta reza: Santo senhor, soltai os espíritos, deixai os meus olhos ver
Aquilo que pr’além mar está acontecer.

Deixai-me subir e olhar
Beber o espírito e orar

Ai, ai que já estou a ver… gorilas, negros e cocos, estou em transe! AI, AI QUE ME DESFAÇO! Mais negros e negras!

Alguém: Mas isso é África, não é a Índia!

Vidente: pois,pois estou desintonizada (vira-se para outro lado)

Vidente: peles vermelhas, perus, bill clinton, pizza, mc donalds!

Outro: Maisso é os “states”!

Vidente: há interferências! Algo está a correr mal!

Peixeira (apontando o judeu): é este senhor que está com o dedo no nariz em vez de se unir aos outros

Vidente: assim não dá, a pomba gira assim não funciona!

Vidente: agora vejo, oh se vejo, o António da Constança, carregado com uma arca, mas que grande arca, é o espólio da conquista, ouro, vejo ouro! Ai que dá uma coisa!


Todos: vem aí ouro! Vamos ficar ricos, quer dizer a Constança é que vai ficar rica!

Constança: Ai que estimado marido! Como eu estou ansiosa pelo seu regresso!


Promessas e contratos

Judeu: minha cara Constança, quando a arca vier, investi comigo algum ouro,
Faremos do negócio do tecido um tesouro

Constança: Mas que rica ideia, desfaço-me do tolo do marido e vou desta para melhor!

Peixeira: Não te esqueçais de mim, juntas faremos do meu negócio do peixe uma empresa sem fim

Constança: claro já me estou a ver toda boa, a rainha de Lisboa!

Jogral: Serei o teu mestre de cerimónia, faremos bailes de arromba
Constança: claro, folgarei todos os dias!

Castelhano : senhora, com o teu dinheiro erguerei um palácio onde a toda a hora te cortejarei!

Constança: Pois, claro, terei vários “maridos”, deixarei a carne solta, serão os meus dias mais vividos:

Vizinha: Ai minha querida vizinha, não esqueçais esta pobrezinha….

Constança: Minha cara, sobrará para todos

Moça : minha senhora, e o meu chalé lá nas Beiras? (aparte) ai o que eu tive de aturar!

Constança: dois chalés minha moça, um nas Beiras outro em Lisboa, e nunca mais me digas que eu não sou boa!


Lemos: não te esqueceis de mim, o melhor está sempre para o fim





 
Auto da Índia - cena da Feira
Aparece a feira

Musica de fundo- musica de folclore

Regateira apregoa enquanto que a moça canta

Regateira- Venha Lisboa ver
A ostra da Mariazinha
Não há ostra como a minha
Saborosa a valer, coma até não poder!

Moça- Ora então deixai lá ver!
Isto é da semana passada!
Olha a excomungada!

Regateira- TINHOSA! ALI ERAMÁ!
PERRA,CADELA,ALEIVOSA,
ANDAR,MOÇA MENTIROSA!

(A moça afasta-se e a regateira continua a insulta-la. A vizinha, que anda por perto fala com o vendedor de tecidos.)

Vizinha- Esta seda é da fina?
Poderei eu confiar?
Quero da vinda da Índia,
Lá do outro lado do mar!

Vendedor- É da seda mais pura
Das índias orientais
Levai senhora, é finura!

Vizinha- E quanto levais por ela?

Vendedor- Cada metro 3 reais!

Vizinha- QUE DIZEIS?
Dou-lhe um cinquinho, não mais!

(O vendedor insulta-a em judaico e ela dirige-se para a moça.)

Vizinha- o vizinha, vizinha!

Moça- diga? Que quer?

Vizinha- ouvi, por acaso, ainda há pouco
À sua janela, de mansinho
Uma voz grossa de homem!
Falavam de cabritinho!
E já uma noite destas
Ouvi uns barulhos de festa.
Ó amiga, conta-me cá
As boas novas que andam por lá,
Conte-me cá, quem é a besta?

Moça- Cabritnho? barulhos de festa? Quem é besta?
Não diga desconcertos!
Minha ama anda muito enfadada
Desde que se partiu a armada!
Chora por nosso amo!

Vizinha- Não eram choros o que ouvia
Eram gritos de alegria!
DE FOGO,DE PRAZER....
Conseguis-me perceber ?

Moça- OLHAI A MAL ESTREADA!
QUEM A OUVIR O QUE DIRÁ!?
CALE ESSA BOCA,ALI,ERAMÁ!

(Vira-lhe as costas e ouve uma vidente.)

vidente- Chegai aqui minha gente!
CONSULTEM A VIDENTE
QUE VÊ O PASSADO, O FUTURO E O PRESENTE!!

Moça- Digai-me então por vossa alma
O que anda meu amo a fazer?
Se a navegar pelas ondas
Se pela cama......!PERCEBEIS-ME?

Vidente- Vejo as praias, os lagos e as ilhas
E o longo balouçar dos coqueirais
Vejo pedras azuis como safiras
Rápidas aves, furtivos animais...
ESPERA... vejo mais, muito mais!
Vejo uma arca, um baú...
Na nau atracada em Calecu!
A Lisboa chegará e vossas vidas mudará!

Moça- Minha ama ficará anojada
Que mudar não lhe pode agradar!
Ao invés de tecer e fiar
E se portar como uma dama
É um na rua outro na cama!!!!
( A vizinha ouve e fica a espreitar escandalizada)

Vidente- A paga lhe chegará pelo mar
Na nau que em breve há-de voltar

Moça (benze-se três vezes)- jesu! Jesu! Jesu!
Direi asinha a minh’ama
O que ouvi aqui na ribeira
E vós, ireis visitá-la
Na noite de segunda feira!
Agora irei que se faz tarde!

(Afasta-se enquanto que a vizinha sai, contente por ter ouvido tudo, o judeu fica a falar com a moça.)


Entra António: A arca, cheia de dinheiro, ouro das índias
conta isto ao ouvido de um espectador e diz para passar a outro
os espectadores vão passando
ele depois vai a meio do anfiteatro e recolhe o segredo:

"......."
cantam a canção da arca
entra Gil Vicente diz que transformaram a peça " isto vai de mal a pior"



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